A ARTE DA GUERRA ou DA VIDA

Querida Juju – Maria Júlia,

O olho vê,

a lembrança revê,

A imaginação transvê

É preciso transver o mundo”

(Manoel de Barros)

A leitura do mundo precede a leitura da palavra”,  (Paulo Freire)

Olhar apenas para uma coisa não nos diz nada, cada olhar leva a uma inspeção, cada inspeção a uma reflexão, cada reflexão a uma síntese, então podemos dizer que em cada olhar atento ao mundo, ja estamos teorizando”, (Goethe)

Este livro, “A Arte da Guerra”, que pode ser também, a arte da vida, pois a vida é uma guerra diária, trás junto um simbolismo da importância cultural da civilização milenar chinesa, na qual a civilização da Grécia nos deixou registrado sua importância, escreveu Herodotus, há 2500 anos: “O Oriente é o berço de toda civilização e toda sabedoria”.

O ato da leitura, numa perspectiva da evolução humana, é recente em nossa história, enquanto quase todas as pessoas no mundo dominam a capacidade de falar, pois é uma evolução de mais de 100 mil anos, não são todos que dominam a capacidade de ler, uma evolução mais recente, dos últimos dois ou trem mil anos.

Um provérbio chinês simboliza essa imagem, essa mensagem, “é melhor viajar dez mil quilômetros do que ler dez mil livros.

O ato e a jornada solitária de ler, não é somente o que lemos nas palavras escritas, mas o que se passa entre o ato da leitura e a nossa mente, o nosso imaginário lendo e traduzindo para nossa realidade presente, para o momento de sua vida.

Tenho comigo que as frases de Manoel de Barros, Paulo Freire e Goethe acima, mostra de forma brilhante essa ideia, pois lemos de tudo no mundo, o olhar, as palavras, os gestos, as imagens e tudo o mais que se vê, que se imagina, que se toca, que se tem experiência.

Creio que não existe um mundo, mas vários, como diz o poeta Manuel de Barros em seu “idioleto manuelez” (O LIVRO DAS IGNORÃÇAS/ Doc.: SÓ DEZ POR CENTO É MENTIRA), (…) “todos os caminhos levam a ignorância,..,[…] poesia não é para compreender, poesia é para incorporar”. Continua o poeta, quem descreve copiando os outros não é dono do assunto, mas quem cria e inventa é, será eternamente o dono dele, portanto, desvende os mundos que cruzar pela sua vida, descubra-os, crie e invente o seu mundo de harmonia e felicidades.

Pode-se dizer, que este livro esta dentre aqueles especiais, como Goethe, Manuel de barros, Paulo Freire e muitos outros, para aprender e desaprender várias leituras de vida ao longa de sua jornada, para você  ver e transver o mundo, assim desejo a você.

Boa leitura, de livros e de mundos.

Beijos no coração,

A Arte da Guerra

Da introdução no FB:

Caros amigos,
Um livro para a Juju – Maria Julia Ferraz – que é filho dos meus amigos,Neilor Pedroso– my brother- e Mara Ferraz Pedroso, uma jovem menina moça, e já nas aulinhas de alemão, ela acha o inglês fácil, fácil.
A minha geração de jogar bolinha de gude e roubar manga no fundo do quintal, é bem diferente, mas muito diferente da nova geração digital, e a velocidade e aceleração de mudança do novo mundo digital está apenas começando, a verdade é que não fazemos ideia das mudanças que estão por vir.
Fiz uma dedicatória do livro para Juju, e gostaria de dividir com os amigos, como os filhos dos amigos, Vitória Ferraz, Lais Borges, Sophia Borges,Matheus Andreus, Vitor Dassan, Maine Dassan, Naara, …..,
com os meus sobrinhos, Guilherme Bosso, Murilo Bosso, Rafael Bosso, Lais Belussi e todos os jovens da geração digital. A dedicatória não é grande, mas creio também não é pequena para a orelha do livro, por isso vai na orelha digital, pois o livro ela vai receber só amanhã.

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Mark Twain e a ignorância, a minha e a sua

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Só dez por cento é mentira,…, todos os caminhos levam a ignorância,…, só a poesia é verdadeira” (MANOEL DE BARROS)¹.

Caros geonautas,

Mark Twain foi um ícone, um dos grandes escritores americanos, e antes de clicar como a maioria nas redes sociais, em curtir na frase acima, vou contextualizar, um pouco de história da tecnologia, como gancho para uma reflexão-provocação da frase, porque como diz outra frase dele, “É mais fácil enganar as pessoas do que convencê-los de que elas foram enganadas”, portanto gostaria de deixar claro, não tenho como propósito, ou esperança, convencê-los, é uma mera reflexão, e não estou certo e seguro sobre, e o que vai sair.

Ao longo da história humana, a estratégia e o controle é uma atividade antiga, desde bem antes das bases de nossa civilização ocidental grego-romana-judáica-cristã, como o mais antigo livro sobre estratégias militares, do chinês Sun Tzu, “A arte da Guerra”, que data mais de meio milênio antes da era cristã (500 A.C.).

No século XX, essa ideia pode ser sintetizado na filosofia americana desde antes e do depois do pós guerra, militar e/ou de empresas, expressa e conhecida pelo termo, C3I: Comando, Controle, Comunicação e Informação.

Assim foram desenvolvidos a maioria dos grandes projetos militares empresariais americanos, seja a logística da segunda guerra, seja a corrida espacial, o GPS, ao desenvolvimento inicial da rede ARPANET dos anos 1960, chegando em nossos dias na internet e nas redes sociais.

Mas sabe-se hoje que, pelos estudos da antropologia, sociologia e psicologia, quando você muda o entorno de convivência das pessoas, o meio em que as pessoas vivem e interagem, você muda seu comportamento, ou seja, a filosofia e a ideologia que vem junto com a evolução da tecnológica das redes sociais, na qual bilhões de jovens participam hoje, e cada vez aumenta mais, estão tornando-os mais politizados sem que eles saibam, se dêem conta do fato, pois a informação corre por todos os lados, em rede, e não somente de forma hierarquizada, selecionada a dedo e  de cima para baixo. Esse certamente não era o objetivo inicial da filosofia da tecnologia pensados lá atrás, e sim controlar as pessoas, o “C3I”.

Um dos hábitos – ferramentas – das redes sociais, à maneira mais comuns de se comunicar com os colegas e amigos nas redes sociais, seja Facebook ou Linkedin, é colocar uma ideia para circular, e você receberá muitos “curtir” e as vezes, alguns comentar.

Mas a reflexão exige mais do que “clicar”, é como a diferença entre falar e ler. A linguagem humana data de 100 mil a 160 mil anos atrás, mas a escrita é mais recente na história, data de alguns mil anos, ou seja, todos falamos mas nem todos temos o hábito de ler, refletir e debater.

Eu diria que, o DNA do “ler” exige um aprendizado e uma prática maior do que o DNA do “falar”. O caso clássico é a do filósofo, guerreiro e sapateiro, Sócrates, que se posicionou absolutamente contrário a escrita no seu tempo, argumentando que ela iria acabar com a capacidade da memória oral. Embora ele tenha certa razão no argumento, a história mostra que foi voto vencido.

A invenção revolucionária da tecnologia da escrita está para Sócrates, o que está para nós, a revolução da tecnologia do nosso tempo, desde a corrida espacial as redes sociais.

O mundo que vem aí pela frente, de tecnologias e possibilidades infindáveis, desvendados por Assange e Snowden – outros virão – é o começo de uma nova era, em outras palavras, foi o que disse Scott McNealy, CEO da SUN Microsystem. em 1999, “You have zero privacy anyway. Get over it” (tradução livre: Você tem zero de privacidade, supere isso). Agora somos, ou podemos ser, caças e caçadores.

Como diz mestre Antonio Candido (Doc. 3 Antonios e 1 Tom): “Se a 20 anos atrás me pergunta-se o que valia mais, se o autor ou se a ideia, eu responderia sem excitar que o autor, agora já não sei mais, vivo incerto, o homem é coisa sublime, porém se as ideais prevalecesse sobre os homens, já de muito que a paz teria pousado sobre essa terra”.

Essa foto, montagem de Matt Ridley, que associa duas peças que foram fabricadas com um milhão de anos de diferenças, a tecnologia do homem da pré-história, a “pedra-lascada”, literalmente, e a tecnologia do homem do nosso tempo, o mouse. Depois de um milhão de anos de aprimoramento de tecnologia, do pré-humano ao ser humano que somos hoje, o formato da peça para caber na palma da mão, é praticamente o mesmo.

(Matt Ridley: Quando as idéias fazem sexo, TED 2010)

Voltando no gancho da frase de Mark Twain e a ignorância citada acima, ela pressupõe, ela tem como base o pensamento iluminista da ciência da certeza, onde tudo seria possível, o mundo das ciência exatas e da filosofia da certeza, desde Galileu, ao mundo newtoniano, de onde partiu o filósofo Emmanuel Kant, transformar o mundo numa máquina de controle do homem, com diversos botões.

A frase que ouvi no início do meu curso de engenharia, e lá se vão décadas, a definição da palavra engenharia: “a engenharia é a arte de dirigir as grandes fontes de energia, para uso e conveniência do homem”, primeira Enciclopédia Britânica, fins do século XVIII e início do século XIX. Definição que não é uma frase de engenheiros, ou só, mas sim uma frase que traz na sua formação e construção, as ideias do pensamento iluministas dos últimos séculos.

A concepção de ignorância da frase de Mark Twain, com sua pressuposição da ciência da certeza, traz consigo uma falsa correlação de ideia, que está em nosso piloto automático do dia a dia, em nossa concepção de mundo e de valores, a concepção de que o conhecimento é uma vaso que precisa ser preenchido, a de que quanto mais eu sei, menos ignorante eu sou, e isso é um erro grasso, um lego engano. Pois ao mesmo tempo que eu julgo o outro com meus valores morais de ignorante, também posso ser julgado pelo outro, com os valores morais e éticos do outro, como um ignorante também.

Paulo Freire, um educador reconhecido mundialmente, o intelectual brasileiro com mais títulos “Honoris Causa” conquistados pelo mundo em toda nossa história (36), nos diz em sua Pedagogia da Autonomia: “Não há saber mais ou saber menos, há saberes diferentes.”

O filósofo do mundo digital e um ídolo dos jovens das redes sociais, Pierre Levy, também nos traz uma reflexão sobre ignorância:

(…)  “o saber não é nada além do que as pessoas sabem, …., O juízo global de ignorância volta-se contra quem o pronuncia. Se você cometer a fraqueza de pensar que alguém é ignorante, procure em que contexto o que essa pessoa sabe é ouro”. Pierre Lévi, A Inteligência Coletiva, pág. 29, 1999.

Gostaria de concluir com Albert Einstein e o filósofo grego, Sócrates.

A nossa ignorância é infinita. O senso comum tende a pensar que conhecimento e ignorância é uma relação inversamente proporcional, ou seja, quanto mais conhecimento se adquire, menos ignorante ficamos. Como mencionado acima, é um ledo engano, é uma relação diretamente proporcional, “quanto mais cresce nosso círculo de conhecimento, cresce proporcional nossa circunferência e experiência com a ignorância” (Albert Einstein, Círculo do Conhecimento).

Sócrates, o pensador grego, o exemplo mais vivo e conhecido no mundo ocidental: “Só sei que nada sei” (quanto mais sei, mais descubro que nada sei, ou seja, nossa sabedoria é limitada à nossa própria ignorância).

De uma maneira ou de outra, ignorante somos todos, depende do ponto de vista de cada um, como alguém disse, e eu acredito, “quanto mais se julga, menos se ama”. Na evolução da jornada humano, a ignorância é uma bem-aventurança – Ignorance is bliss

(1): Manoel de Barros – Documentário ‘Só dez por cento é mentira’

(*) The Economist – Ignorance is bliss Forensic scientists know toomuch about the cases they investigate Jan 21st 2012 . From the print edition: (http://www.economist.com/node/21543121

(**) Stuart Firestein: The pursuit of ignorance FILMED FEB 2013 • POSTED SEP 2013  TED2013

http://www.ted.com/talks/stuart_firestein_the_pursuit_of_ignorance.html

(***) Amazônia no Mundo em ‘Grande Transformação’: Conhecimento e Ignorância, Ciência e Poder. 2012, Conti-Bosso:

http://pt.scribd.com/doc/175612305/Amazonia-no-Mundo-em-Grande-Transformacao-Conhecimento-e-Ignorancia-Ciencia-e-Poder

(****) Yochai Benkler fala sobre a nova economia de acesso livre