O Complexo de Vira-latas

Vídeo

https://www.youtube.com/watch?v=2_WD7dqGbzk Uma produção Cabrueira Filmes e Sem Cortes Filmes semcortesfilmes@gmail.com https://www.facebook.com/SemCortesFilmes https://www.facebook.com/leandrocaproni O termo Complexo de Vira-Latas denomina um sentimento característico de determinadas classes da sociedade brasileira. Esse sentimento, marcado por derrotismo, pessimismo e má informação, está muito ligado à negação do que somos como brasileiros. O documentário O Complexo de Vira-Latas explica esse sentimento, discute o tema e faz um breve panorama social e político da realidade brasileira. Direção Leandro Caproni Roteiro Leandro Caproni Priscila Chibante Produção Diego Silva Bruno Silveira Nathália Bomfim Priscila Chibante Bruno Aranha Leitura da Crônica Wallace Soares Uma produção Cabrueira Filmes e Sem Cortes Filmes semcortesfilmes@gmail.com https://www.facebook.com/SemCortesFilmes https://www.facebook.com/leandrocaproni

A miragem mexicana

Valor Econômico, José Luis Fiori: A miragem mexicana ()

Poucas pessoas inteligentes -fora da Inglaterra – ainda prestam atenção nas notícias da monarquia inglesa e da sua família real, em pleno século XXI. Mas o mesmo não se pode dizer da City britânica e dos seus dois principais órgãos de imprensa e divulgação – o “Financial Times” e o “The Economist” – que seguem tendo importância decisiva na formação das opiniões e dos consensos ideológicos dentro das elites liberais e conservadoras do mundo. A escolha dos seus temas e o uso de sua linguagem nunca é casual. Como no caso recente do seu entusiasmo pelo México e seu modelo de desenvolvimento liberal, e seu ataque cada vez mais estridente ao “intervencionismo” da economia brasileira. Uma tomada de posição compreensível do ponto de vista ideológico, mas que não vem sendo confirmada pelos fatos.

Em 1994, o México assinou o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), junto com os EUA e Canadá, e nos últimos 20 anos tem sido absolutamente fiel ao livre-cambismo, incluindo sua adesão à Aliança do Pacífico, e à iniciativa americana do TPP. Por outro lado, nesse mesmo período, o México praticou uma política macroeconômica e financeira rigorosamente ortodoxa – em particular na última década – mantendo inflação baixa, câmbio flexível, taxas de juros moderadas e amplo acesso ao crédito. Mesmo assim, depois de duas décadas, o balanço dessa experiência ultraliberal deixa muito a desejar1.

Como era de se prever o comércio exterior do país cresceu significativamente no período e passou – em termos absolutos – de US$ 60 bilhões em 1994, para US$ 400 bi em 2013. Mas nesse mesmo período, a economia mexicana teve crescimento médio anual pífio, de 2,6%, sendo o crescimento per capita, de apenas 1,2%. O emprego industrial cresceu de forma setorial e vegetativa, e mesmo nas “maquiladoras” foi de apenas 20%, algo em torno de 700 mil novos postos de trabalho. A participação dos salários permaneceu em torno de 29% da renda nacional e a pobreza absoluta da população mexicana aumentou significativamente.

O modelo mexicano teve um desempenho pior do que o modelo “intervencionista” e “fechado” brasileiro

Por fim, ao contrário do que havia sido previsto, a economia mexicana não se integrou nas “cadeias globais de produção”, a produtividade média da economia praticamente só cresceu de forma segmentada e vegetativa e o “investimento direto estrangeiro” (o principal “prêmio” anunciado em troca da abertura da economia) não teve nenhuma alteração significativa.

Esse balanço fica ainda mais decepcionante quando se compara o desempenho do “modelo mexicano”, com o “modelo intervencionista” da economia brasileira no período entre 2003 e 2012. Segundo dados publicados pelo Banco Mundial2, e pelos ministérios do Trabalho dos dois países, os números e as diferenças são realmente chocantes. Nesse período, a crescimento médio anual do PIB brasileiro, foi de 4,21%, o do México de 2,92%. O crescimento total da economia brasileira foi de 42,17%, o do México, de 29,29 %. As exportações brasileiras cresceram, a uma taxa anual de 6,59%, as do México, a uma taxa de 5,45%. O crescimento total das exportações brasileiras foi de 65,95%, o do México, foi de 54,45%. As importações brasileiras cresceram a uma taxa média anual de 17,33%, e as do México, a uma taxa de 6,75%. O crescimento total das importações no Brasil foi de 173,32%, e no México de apenas 67,54%.

 

Por outro lado, a renda per capita brasileira cresceu a uma taxa anual de 2,84%, e a do México, 1,42%; o crescimento total da renda no Brasil foi de 28,4%, e no México foi de 14,26%; e a participação dos salários na renda chegou a 45 %, no Brasil, e no México, a 29%. Nesse mesmo período, o Brasil criou 16 milhões de novos empregos formais, e o México, 3,5 milhões; e a pobreza absoluta foi reduzida a 15,9%, no Brasil, e aumentou para 51,3%, no México.

Por fim, (pasme-se), entre 2002 e 2012, o “investimento direto estrangeiro” no Brasil, cresceu de US$ 16,59 bilhões, para US$ 76,11 bilhões, e no México caiu de US$ 23, 932 bilhões, em 2002, para US$ 15,455 bilhões, em 2012! Só para encerrar a comparação, em 2013 a economia brasileira cresceu 2,3%, (uma das maiores taxas entre as grandes economias do mundo) enquanto a economia mexicana cresceu 1,1%.

Isto posto, o elogio do México deve ser considerado um caso de má fé, fundamentalismo ideológico ou estratégia internacional? As três coisas ao mesmo tempo. Mas o que importa é o que dizem os números e a conclusão é uma só: na última década, o “modelo mexicano” de abertura liberal, integração com os EUA e livre comércio teve um desempenho extraordinariamente pior do que o “modelo intervencionista”, “heterodoxo” e “fechado”(apud FT e TE) da economia brasileira, junto com seu projeto de integração do Mercosul.

1- Vide artigo do ex-ministro de relações exteriores do México, Jorge Castañeda: “Nafta’s mixed record”, publicado na Revista Foreign Affairs,. de janeiro/fevereiro de 2014.

2-www.data.worldbank.org Gráfico disponível em www.bit.ly/S6lUCo

José Luís Fiori, professor titular de economia política internacional da UFRJ, é autor do livro “O Poder Global”, da Editora Boitempo, e coordenador do grupo de pesquisa do CNPQ/UFRJ “O Poder Global e a Geopolítica do Capitalismo”. Escreve mensalmente às quartas-feiras.

www.poderglobal.net

 

 

Etanol, produção Brasil-EUA: visões estratégicas e incompetências tupiniquim

Bush defende ampliação do consumo de álcool para reduzir dependência da gasolina; confira o memorando

Da crise de energia do início do século a crise de energia do etanol.

Em fins de 2006, lendo um artigo no NYT, que abordava a futura visita do Presidente Bush Jr. para o Brasil (março de 2007), o texto entre outras abordagens apresentava dados sobre a produção de etanol dos EUA comparando com a produção do etanol no Brasil, e os números diziam que os gringos produziam 50% a mais etanol que o Brasil.

Como orgulhoso brasileiro, ri, ri e sorri sarcasticamente dos dados do NYT, usando a percepção imediata do nível “intuitivo 1”, como diz o Nobel Laureado em economia comportamental, Daniel Kahneman, pois sabia que o etanol da cana é entre 6 a 8 vezes mais eficiente que o etanol do milho.

Porém o incômodo do subconsciente continuou, fui pesquisar para escrever artigo-comentário, rebatendo o NYT, mas descobri que os dados estavam certo. Questionei-me: Mas como pode isso? É uma absurdo!

Em minha percepção orgulhosa, não foi levado em conta as outras questões fundamentais, de “Nível 2”, que os americanos tem expertise de sobra, visão política e estratégica de nação, capacidade de planejamento de longo prazo, infraestrutura adequada para a produção escalável atingir os objetivos definidos na política e na estratégia definidos pela sociedade americana.

Era absurdo em 2006 comparando-se somente pelo potencial entre cana e milho, mas o “absurdo” piorou, aumentou drasticamente hoje, o gráfico mostra que a produção do etanol americano está quase três vezes maior que a produção da cana do Brasil (ver gráfico abaixo: artigo do Blog Infopetro: O carro do futuro I: alternativas e desafios).

michelle112013f

Em debate nos últimos anos, já ouvi por diversas vezes, que o motivo é o subsidio do governo americano ao etanol do milho, as vezes que me foi dado oportunidade, rebati veementemente, e disse que precisamos assumir as nossas incompetências tupiniquim, seja governo, instituições de classes do setor sucroalcooleiro e sociedade. O número do subsidio é apenas um numero para fechar uma conta dos objetivos definidos por eles, apenas uma cereja no bolo definidos na política estratégica do país.

As nossas incompetências, não tem nada a ver com relação ao subsidio americano (não na relação direta), e sim com relação as nossas mazelas, incompetências e incapacidades de ter uma visão política e estratégica da nação, seja governo, setor sucroalcooleiro e sociedade. Incapacidade de planejamento e incapacidade de prover infraestrutura escalável adequada, seja para o setor sucroalcooleiro e os outros setores.

Quando em 2011 se anunciou que o Brasil iria importar maios de 1 bilhão de etanol dos EUA, foi surpresa geral, mas não foi novidade para mim, assim como não foi novidade ver as autoridades (pseuso?), do governo, do setor sucroalcooleiro e das instituições ligadas as universidades colocar o rabo entre as pernas, ou se fingirem de mortos. Faz parte do jogo de cena patrimonialista tupuniquim.

E la nave va

Ocidente, Oriente, meritocracia e o novo mundo

Prezados geonautas,

Comentário aos posts de Renato Santos de Souza: Desvendando a espuma (I e II): de volta ao enigma da classe média.

Eu gostaria de agradecer ao Professor Renato Santos de Souza, pelos dois artigos e reflexões. Sobre o texto não teria nada a criticar, pelo contrário, estou na vivessênciaprendiz, que bom que existe vida nas universidades, eu tenho dúvidas se é maioria, mas essa lufada de colocar os pingos nos is, foi muito bem vinda, qualitativa e quantitativa, eficiente e significativa. Mas gostaria de acrecentar uma provocação, como o Renato lembra-nos “o verso,cada um de nós é um universo  (Raul sixas)- a pérola da concepção subjetiva e complexa do ser humano”, tanto o texto do Renato, como os comentários, o universo, as bases do nosso universo se limita ao mundo ocidente, a única matriz considerada pelas elites. Eu gostaria de trazer outros dois universos, o universo ameríndio, por meio de Darcy Ribeiro e o universo Oriental.

Darcy fazendo a crítica ácida a nossa formação secular das elites brasileiras, e um vídeo recente indicado por Martin Jacques, legendas em português, o chinês eric X. Li, fala da cultura milenar oriental e ao mesmo tempo, espoe as víceras do desmoronamento da catedral do modelo ocidental dos últimos séculos, que é a crise de valores morais e éticos pelo que passa o mundo ocidental, e não crise econômica, da qual Martin Jacques tornou-se um especialista, uma referência, desde 2010 (Quando a China Dominar o mundo), visão que também teve nosso filósofo social no fim do século XX, artigo meu do mês outubro de 2013: Celso Furtado e o Ocidente em ‘State of Denial’).

Darcy Ribeiro, no documentário, “O Guerreiro Sonhador”, de Fernando Barbosa Lima, diz a certa altura sobre Anisío Teixeira, vejam bem, a crítica é nada mais nada menos, para Anísio Teixeira:

(…) “a cabeça do Anísio […] era uma pessoa pelo qual não passou nenhuma informação sobre índio, nunca, era um agentizinho europeu aqui,...”

Isso é para mostrar nossas víceras sim, minhas dúvidas e de muitos sobre nossos elites, universidades,…, têm raízes de longa data, em muitos sentidos ainda somos colonizados, ou como disse Darcy, estamos cheios de “um agentezinho europeu aqui“. (fiz abaixo toda a transcrição da fala de Darcy no vídeo sobre esse contexto).

O vídeo de Eric X. Li coloca entre outras questões, o sistema de meritócracia e de valores morais e éticos, da civilização milenar chinesa. Por sinal é o curso que está bombando em Harvard desde 2011, não é sobre moral e éticas no ocidente, mas sim “Moral e Ética na Filosofia Chinesa”.

Como vislumbrou Celso Furtado, disse em seu discurso de posse na ABL,

(…) “Com efeito, as projeções mais recentes a respeito da distribuição espacial dos frutos do desenvolvimento, tanto econômico como científico, indicam que nos próximos dois a três decênios o mundo Oriental terá alcançado, ou mesmo superado, o Ocidente.”

A elite brasileira, e o Brasil, estamos na mesmas condições que Friedric List na alemanha de 1841.

Links:

1- Fernando Barbosa Lima – Darcy Ribeiro: O Guerreiro Sonhador (pt.2)

https://www.youtube.com/watch?v=Z_4bc_asB8c

Transcrição da fala de 5:43 min. à 8:30 min.:

“Eu tinha antipatia pelo Anísio, achava o Anísio um udenista (UDN) muito pequenininho, ranzinza, eu tinha essa antipatia por ele e ele tinha por mim. Há uma frase do Anísio sobre mim, a primeira frase do Anísio muito engraçada, ele dizia, “só pode ser um imbecil, dizem que é inteligente, e se dedica por 0,02% da população brasileira, se fosse inteligente, se dedicaria pelos outros 99,98% da população brasileira, é ideiota, é idiota“, ele também se negava a falar comigo,…, “ele também é um homem rude, um soldado do Rondon, esse negócio, ele quer ser bandeirante“.

Alguns amigos queriam nos aproximar e ele tinha má vontade, um dia eu fui fazer uma conferência para ele, para um grupo em que ele estava, ele nunca tinha assistido uma conferência minha, ele viu a conferência, eu fiz uma comparação entre dois povos G, um COCAMECRA e os CRAOS e fiz um contraste, de repente o infeliz se interessou muito, o Anísio e disse, “é igual Atenas e Esparta, é igual“, ou seja, de Atenas e Esparta que era o interesse dele, ele é de formação européia, uma cabeça feito na igreja, a cabeça do Anísio se liberou na filosofia norte americana, era uma pessoa pelo qual não passou nenhuma informação sobre índio, nunca, era um agentizinho europeu aqui, ele precisava, atraves da Grécia, do contraste bonito entre Atenas e Esparta, ele pode ver que os índios poderiam ser interessantes, risos,…, isso nos aproximou mais ou menos. Ele criou nessa época uma série de centros de estudos sociais, de Antropologia, Sociologia, tendo em vista, conhecer melhor a cultura brasileira, para fazer uma escola mais adaptada para o Brasil, e eu fui trabalhar nisso aí, isso me aproximou dele cada vez mais, houve uma espécie de paixão, depois paixão por uma vida inteira, a minha pelo Anísio e dele para mim, uma identificação tão grande que nós passamos a trabalhar com colaboradores muito próximos.”

Em 1957, Anísio Teixeira convida Darcy para trabalhar no Centro de Pesquisas Educacionais, do Ministério da Educação e Cultura.

2- TED vídeo: Eric X. Li: Um conto de dois sistemas políticos (FILMED OCT 2010 • POSTED JAN 2011 • TEDSalon London 2010)

http://www.ted.com/talks/martin_jacques_understanding_the_rise_of_china.html

Ex Isto

Vídeo

“… usque consumatio doloris legendi” (leitura penosa até a consumação)
“Ex Ist” – The poet imagined a historical hypothesis: “And if René Descartes had come to Brazil with Maurício de Nassau?”

Um filme livremente inspirado na obra Catatau, de Paulo Leminski. O poeta imaginou uma hipótese histórica: “E se René Descartes tivesse vindo ao Brasil com Maurício de Nassau?”. Interpretado por João Miguel, o personagem envereda pelos trópicos, selvagem e contemporâneo, sob o efeito de ervas alucinógenas, investigando questões da geometria e da ótica diante de um mundo absolutamente estranho.

Ficha Técnica: Cao Guimarães, Minas Gerais, 86 min, 2010

Celso Furtado e o Ocidente em ‘State of Denial’

(…) O Ocidente pode se tornar (novamente), uma sociedade covarde?
William Shakespeare, poderia dizer através da voz de seu personagem trágico, Othello Euro-Americano: “yes we can“.

Minha pequena contribuição e reflexão, um contraponto a revista The Economist dessa semana (como sempre, bom artigo), do mundo emergente para o mundo anglo saxão (Has Brazil blown it?):

Version in English: Celso Furtado and the Western Society on ‘State of Denial’

Celso Furtado ficou conhecido como o grande economista brasileiro, como muitos outros, eu tenho um entendimento diferente, Celso Furtado foi um grande pensador e filósofo social, da forma que ele mesmo se definiu em 1973 [*]. Celso Furtado formou-se na Escola de direito no começo dos anos 40, colocou a farda da Forças Armadas do Brasil, e foi lutar na segunda guerra na europa. E voltou da guerra querendo entender o mundo.

Para a geração do pós segunda guerra, ele é um economista no mesmo sentido que outros grandes pensadores em Economia Política, da mesma forma que Joseph Schumpeter, formado em Ciência Sociais no início do século XX e sendo professor em cadeira de antropologia na universidade, se tornou um pensador de Economia Política, da mesma forma que John Kenneth Galbraith, formado na Faculdade de Agricultura (1931) no Canadá, se tornou um pensador em Economia Política, assim como o já então famoso homem de negócios e famoso escritor após o tratado de Versalhes (1919), John Maynard Keynes se tornou um pensador em Economia Política após a grande depressão dos anos 1930. A geração conhecida como os economistas do século XX, como sabemos hoje, não era “Homo Economicus”, como Larry Summers e muitos outros que vagueiam por aí, mas grandes pensadores e filósofos sociais.

Celso Furtado, olhando para frente no horizonte de duas a três décadas no final do século XX, já vislumbrava e alertava-nos. sobre o futuro, entre Ocidente e o Oriente:

(…) “O interesse crescente pelos trabalhos científicos e suas aplicações tecnológicas é traço marcante da civilização ocidental. As grandes civilizações orientais haviam amealhado uma massa enorme de conhecimentos, mas não chegaram a captar as complexas relações entre conhecimento ordenado (ciência), a riqueza ordenada (bens e serviços), e a faculdade normativa de exercer o poder. Hoje, esse quadro já não é mais o mesmo: as posições de vanguarda do Ocidente na ciência e em suas aplicações, que o singularizaram até o fins do século XIX, esvaneceram-se nos últimos decênios do século XX. Com efeito, as projeções mais recentes a respeito da distribuição espacial dos frutos do desenvolvimento, tanto econômico como científico, indicam que nos próximos dois a três decênios o mundo Oriental terá alcançado, ou mesmo superado, o Ocidente.” (“A responsabilidade dos cientistas” – Discurso de Posse na ABL, 04 de julho de 2003 –  Celso Furtado Essencial, 2013 p: 489).

Qual a novidade no Ocidente hoje, desde o livro de Bob Woodward, The State of Denial (2006) – o pico do julgamento moral e ausência (vácuo) de poder do Governo Bush Jr. – derivando na grave crise de valores e na grande surpresa de um negro americano ser eleito para presidente dos EUA?

A novidade no Ocidente é um Papa Latino “del fim del mundo”, como ele próprio se definiu. É o primeiro Papa vindo da Companhia de Jesus, quase 500 anos depois de ser criada por Inácio de Loyola em 1534 e a bula papal em 1540. Chegou ao cume do poder numa instituição que tem quase 2000 anos. Instituição que tem história e cultura para dialogar com as culturas milenares da Ásia.

Nas últimas décadas, a igreja mostrou que tem um padrão (sinais aparente de não ser um mero acaso). Nos anos 70 a “fumaça branca” que saiu do chaminé na praça de São Pedro no Vaticano, elevou um Bispo do mundo comunista para ser Papa. Após o total fracasso da doutrina ( e da administração) do teólogo anglo saxão alemão, o consenso da igreja milenar é a aparente volta ao Concilio Vaticano II de João XXIII, com a chegada de um Papa latino “del fim del mundo”.

Um estudo quantitativo sobre demografia global, revista The Economist em 2010, quase uma década depois da análise qualitativa de Celso Furtado, mostra-nos que, em 2030, 85% da população global estará concentrado na Ásia, Àfrica e América Latina.

A revista The Economist estima que, por volta de três bilhões de pessoas acenderão a classe consumidora, um fato inusitado na história do mundo, quase 50% da população mundial se tornará classe consumidora.

Nesse sentido, o acordo comercial “rápido” (claro viés política, escondendo os fatos) entre América do Norte e União Europeia, que será apenas 15% da população mundial em 2030, aparenta ser um tiro no próprio pé, pior ainda, estão brincando com fogo, claramente estão sem visão de futuro, ou não sabem como encarar a realidade, jogando um perigoso jogo, tentando isolar a China. A secular questão geopolítica: Quem vai controlar o mundo e em quais termos?

Os jovens ir as ruas na Espanha, ou nos EUA (Occupy Wall Street), com total apoio da mídia global, não é a mesma situação dos jovens irem as ruas do Brasil e no mundo emergente.

No mundo dos países da OCDE, os jovens voltam para casa (eles têm onde morar), eles têm o que comer, se for inverno, eles tem aquecedor, se for verão, eles tem ar condicionado. Eles estão defendendo as suas conquistas maravilhosas da sociedade Ocidental, após segunda guerra.

No Brasil e nos países emergentes é o contrário, é conquistar uma qualidade mínima e digna de vida que nunca tivemos em nossa história.

O Brasil tem um divisor de água em sua história, a Constituinte de 1988, nesse sentido, nos últimos dez a vinte anos, mais de 40 milhões de pessoas acenderam a nova classe consumidora – “Classe média”: (indicadores gráficos do Brasil nos últimos 25 anos)

Eu pergunto, o que será o mundo Ocidental (EUA e EU), com uma nova classe consumidora mundial com três bilhões de pessoas vindo da Ásia, África e América Latina?

Duas décadas atrás, a soma do PIB nominal entre EUA e U.E era de quase 70%, hoje está por volta de 50%, a tendência é claramente de declínio: Em 2030 será quanto: 30%, ou 20%? E em 2050?

A forte impressão que paira no ar da sociedade ocidental, que ainda não entendeu , ainda não assimilou a maneira e o tempo de pensar da cultura milenar do povo chinês, como a famosa resposta de Zhou Enlai, a pergunta de Henry Kissinger, no início dos anos 70´s:

Henry Kissinger perguntou ao primeiro ministro da China, Zhou En Lai:
– Qual a sua opinião sobre a revolução francesa (1789)?
A resposta de Zhou EnLai:
– “Ainda é muito cedo para dizer”.

A Sociedade Ocidental, o stablishment da sociedade ocidental, em completo ‘State of Denial’. E isso não é um sinal bom, muito pela contrário, a história mostra-nos, que é um jogo muito perigoso.

Herodotus, considerado o pai  da história, disse-nos, à XXV séculos atrás (calendário Ocidental):

A história é marcada por movimentos alternados através de uma linha imaginária que separa o Ocidente (West) do Oriente (East) na Eurásia.”

A linha imaginária no terceiro milênio, não é mais somente entre Ocidente e Oriente na Euraria, mas um linha planetária e global, que engloba a África e a América Latina “del fim del mundo“.

O Ocidente pode ser tornar (novamente), uma sociedade covarde?
William Shakespeare, poderia dizer atraves da voz de seu personagem trágico, Othello Euro-Americano: “yes we can“.

Parafraseando a questão conservadora americana, “acorda América”, para a nova linha imaginária planetária: acorda cidadãos do mundo!

[*] (..) “Quando finalmente comecei a estudar economia de modo sistemático, aos 26 anos, minha visão do mundo, no fundamental, estava definida. Desta forma, a economia não chegaria a ser para mim mais que um instrumental, que me permitiria, com maior eficácia, tratar problemas que me vinham da observação da história ou da vida dos homens em sociedade. Pouca influência teve na conformação do meu espírito. I nunca pude compreender um problema estritamente econômico. Por exemplo: a inflação nunca foi em meu espírito outra coisa que a manifestação de conflitos de certo tipo entre grupos sociais; uma empresa nunca foi outra coisa que a manifestação do desejo do poder de um ou vários agentes sociais, em uma de suas múltiplas formas etc.” (Aventures dúm économiste brésilien”, Revue Internationale de Sciences Sociales, Paris, Unesco, v XXV, n. 1/2, 1973. Celso Furtado Essencial, 2013, p:45).