Reflexos do lulismo: eixo político move-se à centro-esquerda

Reflexos do lulismo: eixo político move-se a centro-esquerda (Post de sab, 09/02/2013)

Samba, chuva, harmonia e evolução na avenida, e mutação no cenário político, os reflexos do lulismo. Lula na prática, não foi o intérprete desejado, contemporizou com os de cima, mas foi pragmático no poder, enfrentou as questões sociais, mudou “a orientação histórica do país”. O eixo político move-se para centro-esquerda. E a direita não sabe o que fazer.

O eixo da luta política no Brasil no último quarto de século, foi vislumbrado brilhantemente por Raymundo Faoro. Um ‘intérprete do Brasil’, pensador orgânico e “outsider” da academia. Desde seu magistral livro, “Os Donos do Poder” (1958), sua releitura e interpretação da nossa história, depois o livro “Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio” (1975), e a primeira eleição direta para presidente, após 25 anos da ditadura, Faoro relendo o passado de nossa história, ele viu o futuro.

No livro “Raymundo Faoro – A Democracia Traída” (2008), entrevistas gravadas de Faoro entre 1979 a 2002. Sente-se, percebe-se, pelo conteúdo, pelo seu sorriso-maroto machadiano, e quem conhece a história política, sabe que era lido, influente e pautou a vida política do país no período. O livro trás análises memoráveis, de cenários e prognósticos prospectivos, mas era cético e alertava, “a única profecia válida é a retrospectiva”.

O arco de minha modesta análise aqui, um pequeno flash no tempo das análises de Faoro, entre o período da Constituição, a eleição de Luiza Erundina em 1988 e a eleição de Collor em 1989. O jogo e as peças que temos no tabuleiro do eixo da política ainda hoje, foi visualizado por Faoro.

Faoro foi um enigma para mim, desde a adolescência, vi por acaso na TV nos idos de 1976, entrevista dele sobre seu livro, “Machado de Assis; a pirâmide e o trapézio” (1975) Mas ele somente entrou em meu radar em 1986, na sua primeira conferência no IEA-USP, portanto ao ler e reler os livros e as “profecias” de Faoro, fiquei maravilhado, vi boa parte de minha vida, da nossa cultura da conciliação e hábitos estamentais que vem da colônia, como descrita em “Os Donos do Poder” (1958).

É espantoso verificar sua capacidade de análise e o grau de profundidade e complexidade. O método qualitativo ainda é pouco utilizado na academia. O quantitativo e a fragmentação são as palavras de ordem, há um enorme hiato entre um conhecimento e o outro, pois envolve um conhecimento complexo nas mais diferentes áreas do saber, “o saber não é nada além do que as pessoas sabem”. Hoje temos os especialistas e hiper-especialistas, que sabem cada vez mais de cada vez menos, e no limite, sabem tudo sobre nada.

Deparei-me com estudos de cenários futuros em meados da década passada, por estudo de casos, como Pierre Wack na Shell, que se antecipou a crise do petróleo nos anos 70. Sua história sobre os sacerdotes (profetas) do Nilo, que há cinco mil anos, foram os primeiros meteorologistas do mundo a fazer cenários de longo prazo, analisando o comportamento dos três afluentes do rio Nilo, água limpa, meia turva ou muito turva, para tentar pré-definir a área de plantio do trigo as margens inundadas do Nilo.

Faoro, semanas após a queda do Murro de Berlim e a crise do Leste Europeu em 1989, uma verdadeira “revolução” histórica, disse com uma clarividência que nos intriga e deixa-nos boquiaberto, desejei entender esse conhecimento, essa sabedoria, indaguei-me: Como ele chegou a essas conclusões? Quais caminhos, conhecimentos, sabedoria adquiriu para se chegar a um entendimento complexo dessa qualidade e de assertivas prospecções sobre o incerto, o futuro?

Para termos um ponto de comparação, entre o que disse Faoro, suas análises, pensamento profícuo e assertivo, como viu de forma clara e cristalina sobre o futuro das tendências globais, logo após a queda do Murro de Berlim e a crise do Leste Europeu em 1989. E o que viram outros intelectuais pelo mundo no período, por exemplo, segundo o pensador Giovanni Arrighi, em descrição recente sobre o pensamento e a visão americana.

Disse Faoro: “Essa revolução, essa mudança no Leste, fez com que nós ficássemos mais insignificantes do que éramos. Quer dizer, os investimentos e a atenção do mundo vão para lá. Nós éramos ufanisticamente a oitava economia do mundo. Com a entrada do Leste no jogo, nós vamos para a 12° se não ficarmos em 15° […] A Europa vai ressurgir. Vai ressurgir a Ásia. Nada disse é bom para nós. De um lado sobra a realidade do atraso, quer dizer, a América ibérica, a África, um setor na Ásia.”

Giovanni Arrighi, em seu último livro “Adam Smith in Beijing” (2007), disse que o primeiro americano a perceber a importância global da China (Ásia) foi Joseph Stiglitz em 2002, Stiglitz é considerado o maior economista americano atualmente. O próprio Arrighi tem artigo publicado em 1993 sobre o milagre dos tigres asiáticos: “One miracle or many?”.

Destaco outros trechos do livro sobre as entrevistas de Faoro, citado acima, para os propósitos do contexto do cenário político brasileiro, o eixo em mutação, reflexos do lulismo.

Trechos da entrevista após a eleição da Luiza Erundina, gravada em 1988 (publicada em 04/01/1989):

Sobre o PT e as “Armadilhas ao PT”: “A única coisa positiva neste período pós-Constituinte foram as eleições municipais, e elas mostraram um partido, e um partido em torno da qual, provavelmente, vai girar todo o jogo político. Um partido que não era nada até 15 de novembro e que no dia 16 de novembro passou a ser o centro de todo debate político….”.  […] “Faoro achava fundamental o PT manter a lealdade ao projeto que o fez nascer e não crescer a qualquer custo. Isso seria uma barreira à fluidez que tomou conta do PTB de Vargas e do PMDB de Ulysses. O entrevistado liga o alerta: Se o PT conseguir esta lealdade, terá condições de superar todas as armadilhas que vêm por aí.” […] “todo o jogo político de agora em diante vai girar em volta do PT, e a reação ao petismo virá, o estamento ainda não está preparado, mas virá e ela será difícil”.

Sobre Brizola: “O azar do Brizola é um cidadão chamado Lula da Silva. Não como pessoa, mas o Lula da Silva como organizador de partido. O PT foi aquilo que o PTB não conseguiu ser, em outros tempos.”.

Trechos da entrevista após a eleição do Collor em 1989 (publicada em 07/02/1990):

“Faoro propõe dois temas aos entrevistadores, o que chamou de ‘um fator menor’, o Governo de Fernando Collor de Mello, no Brasil, e ‘um fator maior’, os acontecimentos do Leste Europeu com a queda do Murro de Berlim e a crise final do regime na União Soviética”

Sobre o ‘fator menor’: Faoro projeto o fracasso do governo Collor, descarta golpe militar e sinaliza em impeachmentou parlamentarismo.

Sobre o PSDB: (…) “Parece-me que, nas circunstâncias atuais ele seria o partido do centro, mas essas situações são móveis. Depende de como vai se constituir a direita”.

Sobre o PT: (…) “o PT,…, ele é depositário de uma esperança nacional – e nesse ponto é uma esperança ibero-americana-, ele tem de estar consciente disso,…, Eu insisto na responsabilidade do PT, que vai além do que já disse”.

Sobre o ‘fator maior’: “Voltando ao início da entrevista, o senhor falou em um fator maior e um fator menor. Também usou o adjetivo insignificante. O nosso destino é mesmo a insignificância?

Essa revolução, essa mudança no Leste, fez com que nós ficássemos mais insignificantes do que éramos. Quer dizer, os investimentos e a atenção do mundo vão para lá. Nós éramos ufanisticamente a oitava economia do mundo. Com a entrada do Leste no jogo, nós vamos para a 12° se não ficarmos em 15°. Vamos perceber essa coisa fantástica, que somos tão insignificantes como achávamos que a Polônia, a Tchecoslováquia e a Alemanha Oriental eram insignificantes. Quer dizer, vamos fazer uma troca de gentilezas, entre insignificâncias, mesmo porque, em matéria de economia, depois do 7° tudo é insignificante”.

Agora o império soviético acaba, o outro, o norte-americano, permanece?

Não. Se um acaba, o outro não permanece. É uma dialética. […] A Europa vai ressurgir. Vai ressurgir a Ásia. Nada disse é bom para nós. De um lado sobra a realidade do atraso, quer dizer, a América ibérica, a África, um setor na Ásia – e o resto não será mais império de ninguém. […] não porque o imperialismo desapareça, mas porque nós estamos sendo cada vez mais insignificantes para nem sequer constar no mapa do império.”

Diante desse histórico profético e profícuo de Faoro, estou tentando ver o quadro e as mudanças no tabuleiro do jogo político, ver com olhos e os sentidos educados, “ver só de ouvir”, segundo Manuel de Barros, ou segundo Bachelard, “para ver bem é preciso ter imaginação”. A novidade que se vislumbra, termos duas ou três forças políticas se posicionando na centro-esquerda (sendo duas de mesma origem) e somente uma no centro e centro-direita.

Porém não creio ainda, ser possível visualizar um lance final do jogo para Lula e o PT, seja na próxima eleição, em 2014, ou na década, mas o jogo muda de quadra, pois as “armadilhas ao PT” da qual alertou Faoro, o caso mensalão e os desdobramentos recentes, com o julgamento e condenação dos acusados, aconteceu, quebrou-se o encanto lá atrás, agora quebrou-se o espelho.

O futuro do Lula e do lulismo, com sinais de descendência na popularidade, mas trata-se de um mito, e um mito não morre da noite para o dia, mas o estamento, sem estratégia política, fará de tudo para caçar seus direitos legais, mas um mito é outra coisa, como sabemos dos fatos e casos, como o prefeito atual de Vinhedo, que tempos atrás saiu da cadeia e se elegeu prefeito, está no quarto mandato.

A grande novidade, reflexos do lulismo:

Os sinais de que o eixo político do país move-se em passos para a centro-esquerda. A Marina Silva, com a promessa de criação de um partido, claramente sinaliza para a criação de um partido de centro-esquerda, procurando buscar quadros no PT, PDT, PSOL, ela percebeu esse limbo, esse vazio do PT no caso do mensalão. Ela vem traçando uma postura bem diferente da sua experiência no PV com arco majoritariamente liberal. Ela procura ocupar outro espaço, que de certa forma é uma volta as suas origens, a sua história como fundadora do PT. Que centro-esquerda será, se vingar, o tempo dirá.

É bom lembrar, ela tem penetração em quase todos os setores, será na oposição, ou nos aliados descontentes no governo, aos que eram simpatizantes do PT, os evangélicos, cristãos conservadores ou não, além da grande onde verde, a nova ideologia crescente entre as massas dos grandes centros. Procura-se criar, construir uma imagem de um novo mito, para rivalizar com o mito Lula, a mulher guerreira do Amazonas, “o canto do cisne negro” de Heitor Villa-Lobos, um “lula de saia”.

É crescente a aposta na ruptura da polarização entre PT e PSDB das últimas duas décadas. Uma polarização entre duas forças de centro-esquerda, foi ventilado em 1989 entre Lula e Brizola, depois em menor grau entre Lula e FHC. Uma polarização entre Dilma e Marina em 2014, será uma novidade, pois Marina é fruto desgarrado do ninho petista, é a ruptura do PT que tem mais força hoje, com o encanto e o espelho do discurso de resgatar a ética na política. Essa será a grande novidade, duas forças de mesma origem, o petismo.

Sobre o partido ser de centro-esquerda, nos movimentos da Marina, o mesmo pode-se dizer sobre a trajetória do PT de ontem e de hoje. Na prática a teoria é outra. O mesmo vale para Eduardo Campos do PSB, que ano passado, como foi registrado pela coluna Rosa dos Ventos, ele fez um pronunciamento de corar seu avô, Miguel Arraes, falou como se o neto de Tancredo Neves fosse ele, e não Aécio.

Enquanto o campo do centro e centro-direita apresenta sinais de fadiga de material, lembremos Faoro, “no desespero, no pânico, a direita procura o golpe”. Emendando com uma provocação, aquela velha pergunta, agora ao pássaro mineiro, a água de mina, sem cor, sem sabor e sem cheiro: o que pensa Aécio?

Finalizo com o contraditório, síntese da teoria a prática, Faoro e Marx. “Acho que esquerda ou direita são raciocínios, são criações que estão fora do concreto. No concreto não existe nem esquerda nem direita. Existem interesses que se traduzem em ideologias ou não” (Faoro, R., 2008, p:51). “Bem, o capitalismo inglês não tem ideologia teórica. Por que o capitalismo alemão tem? Porque lá não existe capitalismo” (Faoro cita K. Marx, p:62). Trocando em miúdos: o que existe de fato, é a luta pelo poder.

Engenharia de ideias e laços sociais: Quem sou e de onde vim?

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